JONES ABREU SCHNEIDER

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terça-feira, 22 de maio de 2012

Bibi Ferreira, uma menina abençoada pelo tempo

vídeo amador gravado por Jones de Abreu
Bibi Ferreira tem o dom e a permissão de brincar com o tempo. De pé no palco histórico onde estreou Gota d’água (1975), ela vence, com a altivez de uma sacerdotisa, os 70 minutos do espetáculo Bibi in concert. A mulher de 90 anos se transmuta numa menina de “13 ou 14 anos lá do século 17” para desfiar a memória, que se materializa diante da plateia apinhada do Theatro Net Rio (antigo Tereza Rachel) em carne viva e recheada de lembranças e de esquecimentos.
É essa atriz, humana e mitificada como um fenômeno, que surge diante de olhos encantados, que se arregalam quando o corpo ri e quase desaparecem ao marejar de emoção. “Obrigado, todos nós daqui (do palco) agradecemos muito. Ah, vocês se contentam com pouco. Os americanos fazem isso muito melhor”, brinca, diante de palmas efusivas, gargalhadas dobradas e gritos de “bravo, bravíssimo”.
 Dona de um humor fino e cortante, Bibi Ferreira está à frente de uma orquestra majestosa, comandada pelo maestro Flávio Leite. É um momento especialíssimo em uma gloriosa e única carreira no teatro nacional. “Não me lembro da última vez em que cantei assim, rodeada de músicos como estes”. Com uma delicadeza ímpar, o regente não só constrói arranjos grandiloquentes para a voz potente de Bibi, como é o mestre de cerimônias do espetáculo. É ele que, num diálogo quase íntimo, puxa a ponta do fio da memória para que a mulher de 90 anos estique e brinque como uma garotinha. “E os musicais Bibi? Você foi a primeira a fazer no Brasil”, lembra Flávio. “Ah, os musicais... Fiz Alô, Dolly! O homem de La Mancha, My fair Lady...”, responde Bibi, emendando com uma crônica engraçadíssima sobre o tema, para depois, explodir musicalmente em uma sequência de arrepiar a espinha.
Eclética, passeia por temas do cinema da era de ouro de Hollywood, pelos musicais da Broadway e por inacreditáveis árias de ópera cantadas com letras de samba (La Traviata abrigou perfeitamente os versos de Palpite infeliz, de Noel Rosa). Segue com tangos, samba de breque, bossa nova, samba-canção, transitando por cinco línguas (espanhola, francesa, italiana, inglesa e portuguesa, do Brasil e de Portugal). “O meu primeiro idioma foi o espanhol. Minha mãe era argentina e me levou com apenas 1 ano de idade para morar em Buenos Aires”, revela.
Atriz e cantora indissociáveis, que recria Elizete Cardoso, Amália Rodrigues e Piaf (“esta, aliás, tem me sustentado nos últimos 30 anos”, brinca), Bibi se agiganta a cada sequência do espetáculo. É inalcansável no momento em que encarna Joana, de Gota D´água, obra-prima de Chico Buarque e Paulo Pontes. Puxa do cantinho da memória um dos solilóquios da personagem inspirada na trágica Medeia e ganha uma proporção indescritível no palco. Há um silêncio quase absoluto, quebrado apenas por um ou outro soluço de choro.
Neste momento, lá de atrás no balcão, onde conseguiu duas suadas entradas extras, a poeta e servidora da Câmara dos Deputados Isolda Marinho lacrimeja ao lado do marido, o contador e maratonista Geraldo de Souza. Os dois, que vieram ao Rio para amenizar a saudade do filho Davi, estudante da UFRJ, estão pela primeira vez diante do mito/mulher Bibi. “Chorei o tempo inteiro. Era como se ela cantasse para mim”, confessa Isolda, enquanto o companheiro se adianta para revelar às redes sociais um instante que vai levar pra sempre no cantinho da memória, este magnífico templo que abriga o deus-tempo, o guia e mentor de Bibi Ferreira.
escrito por Sérgio Maggio (http://www.blogcricriemcena.blogspot.com.br/)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Oração de Maria Bethânia


Carta de Amor

Texto de Maria Bethânia // Música de Paulo César Pinheiro

Não mexe comigo que eu não ando só 
que eu não ando só, que eu não ando só 
não mexe não (2x) 

Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos Cupis 
sou Tupinambá, tenho Erês, caboclo boiadeiro 
mãos de cura, Morubichabas, Cocares, Arco-íris 
Zarabatanas, Curarês, Flechas e Altares. 
A velocidade da luz no escuro da mata escura 
o breu, o silêncio, a espera. Eu tenho Jesus, 
Maria e José, todos os Pajés em minha companhia. 
O Menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos 
o poeta me contou. 

Não mexe comigo que eu não ando só 
que eu não ando só, que eu não ando só 
não mexe não (2x) 
Não misturo, não me dobro,
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo, me ensina o baile
das ondas e canta, canta, canta pra mim.
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda o meu corpo,
garante meu sangue, minha garganta.
O veneno do mal não acha passagem e, em meu coração,
Maria acende sua luz e me aponta o caminho.
Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã, 
giro o mundo, viro, reviro. Tô no Reconcavo, 
Tô em face, voo entre as estrelas, brinco de 
ser uma. Traço o Cruzeiro do Sul, com a tocha 
da fogueira de João Menino, rezo com as Três 
Marias, vou além, me recolho no esplendor das 
nebulosas, descanso nos vales, montanhas, durmo 
na forja de algum, mergulho no calor da lava 
dos vulcões, corpo vivo de Xangô 

Não ando no Breu nem ando na treva 
Não ando no breu nem ando na treva 
é por onde eu vou o Santo me leva 
é por onde eu vou o Santo me leva (2x) 

Medo não me alcança, no deserto me acho, faço 
cobra morder o rabo, escorpião vira pirilampo 
meus pés recebem bálsamos, unguento suave das 
mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro, no 
Oásis de Bethânia.
Pensou que eu ando só, atente ao tempo não 
comece nem termine, é nunca, é sempre, é tempo 
de reparar na balança de nobre cobre, que o rei 
equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a justiça 

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão 
e pra onde você for não leva o meu nome não 
e pra onde você for não leva o meu nome não (2x) 

Onde vai valente? você secou seus olhos insones 
secaram, não veem brotar a relva que cresce livre 
e verde longe da tua cegueira. Seus ouvidos se 
fecharam à qualquer musica, qualquer som, nem o 
bem nem o mal pensam em ti, ninguém te escolhe 
você pisa na terra mas não sente, apenas pisa, 
apenas vaga sobre o planeta, já nem ouve as 
teclas do teu piano, você está tão mirrado que 
nem o Diabo te ambiciona, não tem alma, você é 
o oco do oco do oco do sem fim do mundo. 

O que é teu já tá guardado 
não sou eu que vou lhe dar, 
não sou eu que vou lhe dar, 
não sou eu que vou lhe dar.(2x) 

Eu posso engolir você só pra cuspir depois, 
minha forma é matéria que você não alcança 
desde o leite do peito de minha mãe até o sem 
fim dos versos, versos, versos, que brotam do 
poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita 
na palma da inspiração de Caymmi, se choro quando 
choro e minha lágrima cai é pra regar o capim que 
alimenta a vida, chorando eu refaço as nascentes 
que você secou. 

Se desejo o meu desejo faz subir marés de sal e 
sortilégio, vivo de cara pro vento na chuva e 
quero me molhar. O terço de Fátima e o cordão de 
Gandhi, cruzam o meu peito. 
Sou como a haste fina que qualquer brisa verga 
mas, nenhuma espada corta 

Não mexe comigo que eu não ando só 
que eu não ando só, que eu não ando só(2x) 
não mexe comigo